quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Idade da Pedra

O homem já foi para a lua.
E nós... economizando energia.
As pessoas têm cada dia mais saúde.
E nós... economizando energia.
A genética moderna está produzindo seres humanos em laboratórios.
E nós... economizando energia.
A tecnologia virtual está modificando as formas tradicionais de consumo.
E nós... economizando energia.
Há algo de errado.
Deve, ao menos, haver.
Vejamos.
Somos um país costeado pelo atlântico em toda sua extensão.
Temos um clima dos mais privilegiados. Equatorial, tropical, serrano, etc...
A variedade do solo é abundante e capaz de assimilar as mais diversas culturas alimentícias.
Temos milhares de rios, e uma boa parcela deles com grande potencial hidroelétrico.
Sp apagãoTemos tecnologia capaz de construir hidroelétricas de 1o. mundo. (Aliás, temos potencial para ser um país do primeiro mundo).
Temos capacidade intelectual para prever problemas, planejar e desenvolver projetos, implantar e operacionalizá-los.
Temos políticos (alguns) capazes para dar suporte a grandes investimentos.
Temos universidades de primeira linha formando profissionais altamente capazes.
Temos tudo.
Temos nada.
Não temos nem energia.
Estamos no escuro.
Quem diria.
Onde estamos?
Ou melhor.
Quando estamos?
Idade da pedra?
2001. Uma odisséia no espaço. Sem espaço.
Macacos. Só macacos.
No filme, eram macacos que erguiam pedras sobre suas próprias cabeças e gritavam. Macacos intuitivos que lutavam e se alimentavam. Faziam ferramentas e caçavam. Sobreviviam.
Agora, macacos que choram. Agonizam. Gastam.
Macacos que fazem tudo errado. Corrompem, roubam, manipulam.
Macacos que cegam.
Macacos me mordam.
Se tornaram gente. Que volta, novamente à idade da pedra.
A idade da escuridão. Do apagão. Do comércio sem eletrodomésticos. Dos cabelereiros sem secadores de cabelo. Das casas sem televisão. Do banho sem aquecimento. Das escolas sem computadores.
Do cristo sem luz.
E ele que sempre foi brasileiro. Apagado.
Como vai proteger o casal que passeia a noite de mãos dadas. Embelezar a formosa e famosa lagoa Rodrigo de Freitas? Como vai iluminar a Augusta, gerar bons e lucrativos negócios na Paulista? Iluminar as baianas e o elevador Lacerda? Fazer brilhar o centro antigo do Recife?
Manter os longos e tão falados almoços mineiros? Como alumiar o Espírito Santo, Vila velha? As cataratas do Iguaçu? Como enxergar os gaúchos tomando chimarrão, o cearense dançando forró...
... o brasileiro pulando carnaval?
Pulando de galho em galho.
Novamente, macaco.
O grande macaco das adaptações.
Adaptou-se à pobreza, à corrupção. À sacanagem, à libertinagem.
À televisão. À novela das oito.
Ao futebol diário. Ao Guga.
À fila nos bancos, correios, padarias, shows, estádios, pedágios...
Adaptou-se a tudo.
Adapta-se a tudo.
Adaptou-se ao sol. Ao calor. À iluminação.
Adaptou-se, sobretudo, a ter vontade própria.
Vontade de sentar-se no escuro e contemplar a lua. Ir ao cinema, escurinho e aproveitar um bom filme. Esperar pelo eclipse do sol, só para ver a noite no dia. Fechar os olhos e ficar no escuro, só por ficar.
Vontade de mover-se para frente. Não para trás.
Idade da pedra? Passou.
Macacos. Chega.
Passado. Morreu.
Luz. Cadê?
Sobrou a lua.
Será que dá conta?

 (Artigo escrito na ocasião do primeiro apagão no Brasil)
Enhanced by Zemanta

Nenhum comentário:

Postar um comentário