Vinte
por cento mais escuro.
Ou
vinte por cento menos claro.
Talvez
vinte por cento mais pobres.
Ou
vinte por cento menos ricos.
Vinte
por cento mais econômicos.
Vinte
por cento mais conscientes. Organizados.
Ou
vinte por cento mais irritados. Inconformados. Indignados.
Eis
o número do momento: vinte.
E
a sigla do momento: por cento.
A
combinação: falta de luz.
Século
21.
Falta
de luz.
Irônico.
Talvez.
Realidade.
Também talvez.
Percepção.
Sim.
A
ironia consiste no fato de sermos um grande país em desenvolvimento com falta
de luz. Um país quase desenvolvido, com aproximadamente 150 milhões de
habitantes, exportador de laranja para grande parte do mundo, que tem um dos
melhores cafés do planeta, é tetracampeão mundial de futebol, gera milhões de
empregos e atrai investimentos estrangeiros cada vez mais pesados, tem
problemas energéticos.
Como
podemos desenvolver sem energia?
Ou
melhor, economizando energia?
Imaginemos
uma criança “em desenvolvimento”:
-
Olha,
vamos dar só um pouquinho de leite para ela. Está muito caro. Temos que
economizar. É para o bem da família.
-
Não
acho uma boa idéia. Acredito que se deixarmos o bebê sem comida durante 12
horas por dia, assim conseguimos mais economia.
-
Meu
bem. Precisamos economizar energia.
-
Já
sei. Vamos dar bastante água para ele. Água, água... muita água.
-
Ah!
Podemos também economizar nas frutas e verduras... e na carne. Assim vai sobrar
bastante energia. Podemos até vender o que sobrar.
Irônico,
não!
Uma
economia “em crescimento” é como uma criança em crescimento.
Crescimento.
Desenvolvimento.
Crescimento.
Uso de energia.
Força.
Motivação.
Queima
de calorias. Impulso. Vontade.
Um
carro. Potência máxima.
Queima
de combustível.
Troca
de pneus. Aceleração.
Vôo.
Um
avião.
Turbinas
ligadas. Barulho.
Arranque.
Vigor.
Um
trator.
Torque.
Força. Produção.
Produção
gerando produção.
Produção
gerando alimento.
Alimento
gerando força.
Força.
Força,
sinônimo de energia.
Energia
que gera.
Energia
que não gera.
É
gerada. Não mais. Acabou.
Esta
é a realidade. A fonte da energia secou. Quer seja verdade ou não. A fonte
secou. E quando a fonte seca, o que se deve fazer é economizar até que o mau
momento passe. É isso que a população brasileira deverá fazer nos próximos
meses: economizar.
Até
quando?
Oras,
até quando S. Pedro disser que sim.
Passando
seu mau humor, teremos a bendita fonte novamente cheia de água. E estando
cheia, cheios de energia novamente estaremos.
A
produção de energia? Tudo sob controle.
O
problema é a falta d’água.
Infra-estrutura?
Sem problemas.
O
problema é a falta d’água.
Investimentos
no segmento? Tudo na mais perfeita ordem.
O
problema é a falta d’água.
-
Vamos lá S. Pedro. Não nos deixe na mão.
Esta
é a realidade. Irônica, porém real.
É
assim, pelo menos, a forma que a percebemos.
Percebemos
o problema.
Percebemos
a realidade.
A
realidade é um problema.
A
percepção é um problema.
Aos
olhos de quem percebe, a percepção não passa de uma simples realidade. Assim
percebida.
Precisamos
economizar, senão ficaremos no escuro.
No
escuro e pobres.
Ficar
no escuro não é bom.
Nem
ser pobre.
É
assim que percebemos a escuridão.
Uma
péssima percepção.
Os caras que estavam roubando vão continuar roubando.
Só que no escuro.
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