Minha primeira troca de fralda.
Não me lembro.
Minha mãe, provavelmente, lembra-se.
Meu pai, nem pensar. Naquele tempo, homens não trocavam fraldas.
Minha primeira bronca.
Talvez não tenha gostado. Mas provavelmente tenha valido. Provavelmente tenha chorado, gritado, esperneado. Aprendi.
Minha primeira refeição – aquela na cadeirinha, tão utilizada por publicitários em todo o mundo. Fiz muita sujeira. Não que me lembre, mas sou lembrado constantemente. Uma luta. O pai ou a mãe tentando fazer com que o filho ou a filha coma aquela papinha que, acredito eu, deva ser realmente muito ruim.
Meu primeiro banho. Devo ter gostado, e muito. Afinal de contas, os primeiros nove meses de vida se deram na água. A cada banho, portanto, matava minhas saudades de um tempo calmo e tranqüilo, onde tinha segurança e conforto. Ah, como era bom.
Meu primeiro passo. Acredito que minha primeira grande vitória. Andar. Que coisa linda. Poder chegar ao infinito. Subir em cadeiras, trepar nas prateleiras. Quebrar tudo o que se vê pela frente. Os antigos vasos da mamãe, por exemplo. Aí, novamente, a bronca. O lado ruim de se aprender a andar.
A primeira escola. Quanto sofrimento. Desespero. Pela segunda vez na vida, meu cordão umbilical foi cortado. Fui tirado novamente do conforto onde estava inserido. Da minha casa. Do meu lar. Quando estava começando a me acostumar com minha nova residência, tiraram-me de lá e me colocaram-me num ambiente díspar e cheio de gente que nunca tinha visto antes. Professores, coordenadores, garotos, garotas. Quanto medo.
Minha primeira professora. Shirlei. Bonita. Loira.
É só o que me lembro.
Meu primeiro beijo. Não gostei. Foi lá em Auriflama, com uma menina, lembro-me, de questionável reputação. Um lábio tocando o meu. O que poderia fazer. Todos os meus amiguinhos beijando sem parar e dizendo como era bom. Tive que tentar. Mas com a pessoa errada. Mau começo.
Meu primeiro emprego. Na verdade, um estágio. Trabalhava com um tal de “Jesus”, se bem me lembro. Também não gostei muito. Não tinha muito valor. Digo, eu. Eu não tinha muito valor. Era usado. Faça isso! Faça aquilo! Compre aquele outro! Respeitem-me. Respeitem minha idéias, era o que pregava dia e noite na tentativa de ser alguém. Na tentativa de ser visto como alguém.
O primeiro emprego foi o meu próprio emprego. Montei uma agência de publicidade. Ainda existe. Não estou mais lá.
Meu primeiro amor. Nunca esqueci.
Meu primeiro texto. “Serpentes de Asfalto” foi o título. Adorei. Foi publicado por um grande jornal do estado. Lembro-me que essa fase mostrou-me, a mim mesmo, o espírito crítico que se desenvolvia. Questionava tudo. Queria mudanças. Queria atitudes. Ainda quero.
Minha primeira vez.
Minha primeira vez num jornal Nacional. Ou melhor, na Gazeta Mercantil.
Mais uma primeira vez numa nova fase.
Uma nova fase que, novamente, é uma primeira vez.
Todas as fases são aprendizados, como também as primeiras vezes o são.
Aqui estou eu.
Novamente aprendendo.
Desde a fralda, aprendendo.
E, depois de bem velhinho, cansado e enrugado, continuarei aprendendo.
Como da primeira vez.
A primeira vez não acaba nunca. Nem que queiramos.
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